O raio governa todas as coisas que são
Herácrito
Entre filosofia, a obra Teogonia: A origem dos deuses, principal referência sobre mitologia grega, e cinema: Percy Jackson e o ladrão de raios
À primeira vista, lançar em um mesmo plano referências tão distantes no tempo, pode nos parecer estranho, porém, verificaremos através de um exame mais detalhado, o quanto a filosofia moderna, mais especificamente os trabalhos de David Hume, podem nos oferecer uma base filosófica precisa para interpretar o imaginário expresso nos personagens da mitologia grega que por sua vez aparecem em sua versão pop no filme “Percy Jackson e o Ladrão de Raios” (EUA, 2010), que se trata de uma adaptação para o cinema do livro inicial da série “Percy Jackson e os Olimpianos”, do escritor americano Rick Riordan. Deste modo, começaremos por traçar melhor a posição da metafísica de David Hume nesta história toda. Para o filósofo, a partir de passagens encontradas em seu célebre livro “Investigações sobre o entendimento humano”, mais precisamente nas seções II e II, intituladas “Da origem das ideias” e “Da associação da ideias”, constatamos uma teoria das ideias que se funda primordialmente com base na experiência.
Experiência, na linguagem de David Hume, significa o conjunto de dados informações que obtemos através dos sentidos, isto é, significa tudo aquilo que nos afeta de modo imediato, seja no campo da percepção de objetos externos, seja no campo da erupção dos afetos, sentimentos internos, pelos quais somos tomados de acordo com as circunstâncias. Sobretudo, na linguagem de David Hume, o conceito que corresponde ao termo experiência, ganha o nome de “impressões”, que são as nossas percepções mais vivas.
O lugar das “impressões” contudo, se encontra em contraste com a outra categoria de percepções mais fracas, que se denominam “pensamentos ou ideias”, que por sua vez se remetem à reflexão e à lembrança, em que as percepções originais apreendidas pelos sentidos são mais vagas em detalhes, pois na reflexão e na lembrança de uma sensação ocorrida a determinação e definição escapa à totalidade do acontecimento original.
Contudo, as impressões acontecem justo no momento quando observamos, sentimos, ouvimos, isto é, quando os detalhes dos acontecimentos presentes estão mais vivos, mais recheados de detalhes. Já na reflexão e na lembrança as qualidades dos objetos e o fervor dos sentimentos está amansado, apaziguado, pois a reflexão e a lembrança não retomam a impressão original.
Deste modo, para o filósofo existirá então uma relação de interdependência entre ideias e impressões. Em sua concepção, em nossas percepções primordiais abrigam-se a gênese e origem de todas as nossas ideias. Isto é, entre impressões e ideias uma relação de causa e efeito as aproxima de modo umbilical. Assim, uma idéia tem como sua causa, digamos assim, uma dada impressão, ou em outros termos, uma determinada ideia tem como sua causa um certo conjunto de impressões fornecidos pela experiência. E de modo inverso, uma dada impressão produz como seu efeito uma determinada ideia.
Assim também funcionará o mecanismo que rege nossa imaginação. Conceito que mais nos interessa na presente investigação. Se estamos acostumados a ouvir que a imaginação é livre, para David Hume, ela está precisamente restrita nos limites de nossa experiência, ou seja, nos limites das impressões às quais tivemos acesso. Deste modo, poderíamos afirmar que nossas impressões seriam como as portas de nossas ideias. Pois é justo através das impressões dadas pela experiência que nossas ideias tomam forma.
No caso da imaginação, David Hume encontrará um conceito preciso para explicá-la. Para delimitar melhor como a nossa imaginação se forma, nasce na filosofia de David Hume o conceito fundado no princípio da associação de ideias. Com este conceito, abre-se então a possibilidade de localizarmos melhor a origem daquilo que nos sobrevém à mente quando o assunto é imaginação.
Ao invés de nos assustarmos ou nos espantarmos com figuras e formas estranhas à natureza e à realidade, como no caso de pesadelos, sonhos, filmes de terror ou ficção científica, desenhos animados, revistas em quadrinhos, etc, na perspectiva de David hume, todos os dados da experiência, isto é, nossas impressões, quando retomados em nossa memória ou imaginação, são ora aumentados, diminuídos, combinados e sobretudo associados, seja de modo eventual, seja de modo imposto pela vontade e pela criatividade. Deste modo, o principio da associação de ideias é responsável por ligar, na imaginação, dados, figuras, qualidades, características e informações de objetos e formas diferentes, que no plano da natureza e da realidade seriam impossíveis.
Teogonia: a origem dos Deuses: a luz das interpretações metafísicas de Hume acerca da “imaginação”
Ora, modernamente é que se tematizou a partir de outra abordagem, perspectiva, uma interpretação empirista da formação de ideias e nestas a imaginação como nos propõe David Hume. O que nos chama a atenção quando nos deparamos com uma obra como a Teogonia de Hesíodo, que ocupa o lugar mais importante do que nós modernos conhecemos dos antigos gregos, que se referia à sua mitologia, a figuras no imaginário de linguagem e imagem tão rico como a mitologia grega o fez, e que para a modernidade nos chega principalmente através dos desenhos de massa e também do cinema.
As figuras reunindo características animais, como minotauro, ou aumentadas, segundo a indicação de Hume, ou as musas como profetas da criação; “Pelas musas eniconiádes comecemos a cantar” (Proêmio as Musas). Anunciando as Musas a origem e as divindades ou alegoria do pensamento grego por mediação do princípio da imaginação: o canto das Musas na obra de Hesíodo:
“vão em renques
noturnos lançando belíssima voz,
hineando Zeus porta-égide, a soberana Hera
de Argos calçada de áureas sandálias,
Atena de olhos glaucos virgem de Zeus porta-égide,
o luminoso Apoio, Ártemis verte-flechas,
Posídon que sustém e treme a terra,
Têmis veneranda, Afrodite de olhos ágeis,
Hebe de áurea coroa, a bela Dione,
Aurora, o grande Sol, a Lua brilhante,
Leto, Jápeto, de curvo pensar,
Terra, o grande Oceano, a Noite negra
e o sagrado ser dos outros imortais sempre vivos.”
O pretendemos indicar, a partir da teoria da imaginação de David Hume, trata-se em compreender que encontramos na filosofia referências interessantes em dialogar com um filme que traz à tona uma interpretação da literatura juvenil de um americano chamado Rick Riordan. E nos perguntar ao nosso modo o que interessaria ao fenômeno óptico e artístico do cinema em uma mega e boa organização de cinema de massas, que agrega nada mais nada menos que o diretor Chris Columbus (que dirigiu os dois primeiros Harry Porter) que retoma a mitologia grega e por tabela trechos da obra que mais chegou aos leitores de nossas gerações sobre mitologia grega que é “A teogonia: a origem dos deuses” do poeta Hesíodo. E como o sabemos a relação à origem em privilégio da ordem do divino como encontramos na parte intitulada na Teogonia como “Deuses primordiais”:
“Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade”
A Zeus deram o trovão e forjaram o raio: e nos aparece no cinema nosso caro amigo Ladrão de raios: o principal acusado é Percy Jackson
Ora, logo o relâmpago, o trovão de Zeus? Estaria a hierarquia do arquétipo de rei dos reis do Universo, o grande Zeus em perigo? Tendo seu principal poder ameaçado? Seu atributo da natureza que ele Zeus coordena? O que a trama do filme anuncia logo ao início é a instabilidade do Olimpo. Poseidon, ligado ao elemento da phisys que é o mar, e Zeus, ao governo do “Relâmpago”, em uma dilema: localizar o raio que foi roubado: o raio de Zeus.
Em meio a esta trama e aventura, se passa na busca por este raio principal, já dizia o filósofo Heáclito: “O raio governa todas as coisas que são”. O interessante que a grande maioria dos personagens dá relevo, em um cenário místico próprio da obra de Hesíodo, como assenta uma outra narração dos mitos os dando espetacular relevo, como por exemplo, as figuras ou imagens da Hidra, do olhar fatal Medusa.
Vale a pena articular algumas noções acerca do tema da imaginação na filosofia de David Hume, para a qual a principal constatação em relação ao conhecimento é exatamente a pergunta: “What impression that Idea is derived?” (Hume, Resumo de um Tratado da natureza humana, Edição bilíngüe inglês-português)
Levando adiante as Teses de Hume como referência de uma leitura da obra de Hesíodo, e de sua roupagem moderna no filme do diretor Chris Columbus
Ora, retomemos o percurso, em uma primeira oportunidade nos deparamos com a filosofia de David Hume, e uma tentativa de demonstrar através de análise de exemplos, que o filme Percy Jackson e o Ladrão de raios, baseado no livro de Rick Riordan, e a obra clássica Teogonia a origem dos deuses, principal referência para as figuras do imaginário da mitologia grega, um fio condutor entre eles, que por sua vez nos daria abertura para um diálogo entre metafísica, a partir do tema da imaginação, e as figuras encontradas no filme, que data de 2010.
Nossa inclinação é indicar que as afirmações de David Hume de que as figuras da imaginação associam de uma forma ou de outra elementos, características, da experiência sensível. Podendo, a atividade da imaginação, aumentar, associar, diminuir, caricaturar, como própria dinâmica do pensamento, os dados fornecidos pelos sentidos. Os elementos da natureza tornadas divindades na obra de Hesíodo, e que o filme em questão dá relevo e imagem, nas figuras de Poseidon, dos mares, e Zeus, dos raios.






1 comentários:
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